sexta-feira, 14 de setembro de 2012

relatório 11


eu tava bem pequeno. recém nesse corpo. tinha uns sete anos que eu tinha ele. daí eu tava na escola, lá onde eles falam, falam, falam pra gente decorar coisas e tudo e aprender a viver, como eles dizem. eu tava na escola e começaram a dizer que eu gostava duma fêmea lá com a mesma idade que eu. e eu fiquei com vergonha. eu não gostava dela. daí eu falei que não gostava dela e eles começaram a rir mais. eu fiquei bem vermelho: quando o sangue sobe até a cabeça a gente fica vermelho. não sei assim certo quanto de sangue precisa pra ficar vermelho. mas eu fiquei bem vermelho e comecei a chorar porque eles riram de mim. a fêmea nem falava nada.
no outro dia era o meu aniversário. aniversário é quando completa um ano a mais, 365 dias, não sei quantas horas, que a gente tem esse corpo. isso acontece até a gente morrer. eles comemoram o aniversário cantando e comendo e recebendo coisas pra usar, pode ser qualquer coisa, meia, cueca, vaso de flor, bicicleta, qualquer coisa. ta. daí eles me chamaram no meu aniversário pra ficar na frente da turma com quem eu aprendia a viver, como eles dizem, pra cantar "parabééns praa vo-cêê ". eu fui lá e eles começaram a cantar e eu não sabia o que fazer. coloquei as mão assim pra trás porque não sabia o que fazer com elas também. eles cantando e cantando. eu fiquei todo vermelho de novo e todo mundo parou de cantar e um lá de trás disse: óóó, ta vermeelhoo!!! eu fiquei mais vermelho e a professora tava no lado rindo também. todo mundo começou a rir e eu escorreguei não sei como e caí de bunda no chão. eles riram mais. eu chorei não sei direito por qual dos motivos. só abri a boca e berrei forte de verdade e escorria água do olho e isso tudo. a professora me levantou, abraçou e disse: ahhh, ficou emocionado. me colocou sentado no meu lugar e depois eu não lembro mais. ainda bem. mas eu lembro que não achei legal ficar emocionado.
e é assim que eles ensinam a viver.

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