eu tava bem pequeno. recém nesse corpo. tinha uns sete anos
que eu tinha ele. daí eu tava na escola, lá onde eles falam, falam, falam pra
gente decorar coisas e tudo e aprender a viver, como eles dizem. eu tava na
escola e começaram a dizer que eu gostava duma fêmea lá com a mesma idade que
eu. e eu fiquei com vergonha. eu não gostava dela. daí eu falei que não gostava
dela e eles começaram a rir mais. eu fiquei bem vermelho: quando o sangue sobe
até a cabeça a gente fica vermelho. não sei assim certo quanto de sangue
precisa pra ficar vermelho. mas eu fiquei bem vermelho e comecei a chorar
porque eles riram de mim. a fêmea nem falava nada.
no outro dia era o meu aniversário. aniversário é quando
completa um ano a mais, 365 dias, não sei quantas horas, que a gente tem esse
corpo. isso acontece até a gente morrer. eles comemoram o aniversário cantando
e comendo e recebendo coisas pra usar, pode ser qualquer coisa, meia, cueca,
vaso de flor, bicicleta, qualquer coisa. ta. daí eles me chamaram no meu
aniversário pra ficar na frente da turma com quem eu aprendia a viver, como
eles dizem, pra cantar "parabééns praa vo-cêê ". eu fui lá e eles
começaram a cantar e eu não sabia o que fazer. coloquei as mão assim pra trás
porque não sabia o que fazer com elas também. eles cantando e cantando. eu
fiquei todo vermelho de novo e todo mundo parou de cantar e um lá de trás
disse: óóó, ta vermeelhoo!!! eu fiquei mais vermelho e a professora tava no
lado rindo também. todo mundo começou a rir e eu escorreguei não sei como e caí
de bunda no chão. eles riram mais. eu chorei não sei direito por qual dos
motivos. só abri a boca e berrei forte de verdade e escorria água do olho e
isso tudo. a professora me levantou, abraçou e disse: ahhh, ficou emocionado.
me colocou sentado no meu lugar e depois eu não lembro mais. ainda bem. mas eu
lembro que não achei legal ficar emocionado.
e é assim que eles ensinam a viver.
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